Feminismo liberal e Esquerda Assimilada descredibilizam denúncia e protege agressores de pessoas trans

Com maestria foi anunciado o som da Orquestra Popular Burguesa pelo Direito de todxs à Cidade Classe Média. Primeiramente a Moderação do Grupo Direitos Urbanos, remove postagem de denúncia de agressão cometida por Ítalo Bazon e apoiada por Roger de Renor. Depois posts de Carlota Pereira e Liana Cirne concluem a apresentação dando o toque clichê de naturalização da violência sexista. Tudo ao vivo direto do Teatro Santo Mark Zuckerberg.

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“Minha frustração, chateação ou inquietude, como queira chamar, surge quando me deparo com várias situações ao meu redor em que se supõe que, segundo o discurso, deveríamos já ter superado ou no mínimo trabalhado sobre elas e que, muitas vezes, reproduzimos os comportamentos mais ordinários do oportunismo clássico.

Vejo que colegas (gurias) são agredidas por seus companheiros, física e psicologicamente, vejo que colegas (principalmente caras) escondem sua homossexualidade, vejo que quando acontece algum debate sobre sexismo ou patriarcado é sempre uma iniciativa das gurias e as posturas dos caras são bastante patéticas, vejo milhares de dinâmicas que reproduzem as desigualdades entre caras e gurias, homos e héteros (cantadas, papeis em reuniões,restrição à escrita…), vejo hierarquias informais que fazem com que tenhamos uma dupla moral frente a diversas situações (credibilidade de acordo com a pessoa, cantadas, abuso, agressões…), vejo que não temos mecanismos para afrontar tudo isso, e que nem sequer temos um espaço, ou interesse para criá-lo, onde possamos falar sobre e procurar saídas…”

“Sobre gênero e caras “do rolê” (ou de como estamos com a merda até o pescoço).” Texto difundido em 2004 no Indymedia e no fanzine espanhol “Bailamos?”. Versão em português publicada no livro Tesoura Para Todas: Violência Machista nos Movimentos Sociais, 2013. Ed. Deriva

A denúncia de agressão e cumplicidade machista compartilhada na ARCA ocorrida na última edição do Som na Rural, revela com detalhes, o nível em que a discussão sobre violência sexista encontra-se no cenário político de Recife. Usos de fala e compartilhamentos oportunistas, além de comentários que classificam a denúncia como farsa, embasados nas relações pessoais com celebridades e outros tantos clichês machistas, evidenciados por apenas um motivo: a denúncia compromete diretamente o fazer político de quem faz arte urbana e se apropria dos discursos de direito à cidade. Apesar da agressão não ser formalmente negada pelos denunciados, muita gente concluiu que a publicação não contém provas e que as informações eram imprecisas e truncadas.

Acreditamos que o texto localiza muitíssimo bem a violência ocorrida e a cumplicidade do produtor cultural com o agressor, além das informações descritas contarem com uma quantidade significativa de testemunhas, entre elas a ex-cunhada do agressor que também profere uma nota publicada no blog da ARCA. O texto também denuncia a cumplicidade do Som na Rural com incitadores de estupro e também relata a contínua perseguição de Ítalo às pessoas trans, expulsando-as do local. Mas ainda assim a muita gente ainda crê que estas informações são insignificantes para a denuncia publicada.

450xNTais justificativas apenas atestam que o combate ao machismo visto nas pessoas que compõe o nicho mercadológico da esquerda assimilada e colaboracionista é seletivo e midiático, não admitindo questionamentos incisivos com as pessoas na qual há interesse de articulação ou de visibilidade. A moderação do Grupo Direitos Urbanos, Liana Cirne, Carlota Pereira, Edilson Silva e várias outras pessoas ligadas ao PSOL agem descredibilizando a denúncia e colocando os apontados em locais de conforto, como faz toda a estrutura da supremacia machista tão enraizada no Estado Democrático de Direito, estrutura que todas as citadas parecem reivindicar não reconhecendo que a lógica de Estado e Elite Soberana é uma das mais sofisticadas e perigosas tecnologias de dominação patriarcal.

Tal posição atesta o completo desconhecimento a cerca de toda uma epistemologia, cuidado e prática feminista, transfeminista e sexodissidente sobre situações de agressão, assédios e abusos por parte de pessoas com amplo status social. Assim, empenham-se em reproduzir a norma opressora clichê de desacreditar nas vítimas e ao mesmo tempo não leva como prioridade que os denunciados não sejam acobertados ou confortavelmente inocentados, pelo contrário, expõe a falta de interesse e a incapacidade de questionar criticamente as pessoas que circulam em volta da sua redoma e fornecem vantagens para um fazer político realizado nos moldes de espetáculo. É sabido que esta postura pouco tem a ver sobre provas e informações precisas, tem a ver com o peso político que a nota implica e traz no apontamento de suas localizações. A maneira como foi lidado este caso escancara a pífia inserção nos debates sobre opressões sexuais e de gênero em perspectiva emancipatória e não assimilacionista de grupes e individues esquerdistas em Recife.

A invisibilidade, descredibilidade e rechaço de pessoas trans; proteção, camaradagem e solidariedade aos agressores, bem como a apatia, inércia e desprezo sobre uma grave situação de agressão contra pessoas trans por pessoas que estudam violência doméstica, por um feminismo elitizado e por esquerda demagógica e hipócrita também implica em racismo quando as que desvalorizam, negam e desmerecem a denúncia ocupam profissões de prestígio e privilegiadas na estrutura capitalista, são, não por acaso, pessoas brancas e/ou colaboradoras de valores brancos. Infelizmente o discurso de trabalhadoras ambulantes transgêneras e negras, sem prestígio social e sem colaborações sistemáticas com os privilégios hegemônicos, por mais rebuscado que se apresente, nunca foi colocado como algo credível e possível de verdade. No Estado Democrático de Direito é o discurso do colonizador vestido pela etiqueta civilizada que é aceito e na sua maioria das vezes incontestável e é esta perversa estrutura e lógica de relação de poder que se reproduz nas mais diversas e pequenas situações submetidas por esta macropolítica.

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O que vem acontecendo é exatamente o que o sistema machista faz com as mulheres todos os dias, só que com o agravante de partir de pessoas que tem uma militância expressiva na cidade, poder de convencimento e alto alcance de suas ideias. O poder político destas pessoas se dá apenas por serem sujeites que possuem poder e privilégios na atual estrutura de dominação e claro, colaboram com a exploração capitalista. O uso covarde do estereótipo de loucas, mentirosas, violentas, agressivas, barraqueiras estimulando a descredibilidade e estigmatização das vítimas, também implica em misoginia por se valer de estereótipos criados pela lógica machista para deslegitimar, tão comumente, pessoas ligadas a ideia de feminino. Ainda foi relatado falaciosamente, na tentativa de deslegitimar as denunciantes, que algumas companheiras estão se afastando do feminismo e que muitas entraram em depressão, por conta das denunciantes. As mesmas esclarecem que não compartilham, nem ao menos compõe espaços feministas institucionais, estudantis ou mesmo tradicionais na cidade, sendo a denúncia da advogada uma calúnia abominável usada apenas para estigmatizar pessoas trans, o que acarreta transfobia explicita, covarde e maquiavélica. Os espaços de luta antisexista que as denunciantes tentam se aproximar são aqueles com explicitas intenções e posicionamentos anticapitalistas, que certamente não são os mesmos que circulam a difamadora.

Consideramos que os desdobramentos da denúncia, a exclusão da nota da página do DU, os posts de Liana Cirne, a nota de Carlota e mais uma centena de compartilhamentos e comentários que deslegitimaram, escracharam e silenciaram as denúncias, estão completamente em desacordo com uma lógica e prática feminista para lidar com denúncia de agressões e casos que envolvem violência com pessoas de status. Como é que duas denúncias são feitas e as pessoas simplesmente não as problematizaram e focaram, estritamente, em uma defesa visceral de Roger e do Som da Rural? O que importa é a imagem da rural não ser transfóbica em detrimento da segurança e bem estar de todas as denunciantes?

Casos como este faz nos lembrar-nos de Idelber Avelar e Carlos Latuff e sobre como ter poder político pode inocentar ou relevar qualquer atitude politicamente controversa, também nós é salutar a lição e uma leitura crua sobre o ativismo em Recife: Empoderamento como status individualista, solidariedade branca e sustentada por profissões de prestígio, enquanto pessoas trans negras são agredidas a custas da invisibilidade, apatia e desprezo das que agregam valor político apropriando-se de discursos emancipadores com objetivo de acumular status.

Segue abaixo a mensagem da moderação do grupo Direitos Urbanos, justificando a exclusão do post:

“A moderação se reuniu para decidir sobre este post e chegamos à conclusão que ele parte de uma denúncia sem fundamento de provas. Mais: acusa Roger de violência quando não parece haver nenhum prova clara que isso aconteceu. Acredito que a própria semântica da denúncia carece também de clareza e discernimento, aumentando o clima de de incerteza quanto aos fatos. Desta forma, a moderação vai retirar o post e espera que a autora reformule de forma precisa e com provas substanciais a acusação. Caso contrário, seremos obrigados a retirar o post novamente. No mais, o a moderação do DU esclarece que este não é o primeiro e provavelmente não será o último post a ser retirado quando se trata de denúncia pouco esclarecedora. É preciso haver responsabilidade e provas para fazer este tipo de denúncia e o texto postado não parece ter seguido esta linha”.

Comentários em apoio as vítimas:

transito“Eu até entendia mais quando vocês não queriam romper com a brodagem, mas agora que muitos já romperam me pergunto por que fizeram isso seletivamente. (…) Eu preciso dizer que isso é transfobia. Vocês já se posicionaram contra o machismo e a favor da representatividade a partir de diversos episódios este ano e, em outra proporção, em anos anteriores, e aqui incluo o caso onde um grande amigo de Roger, Ortinho, fez apologia ao estupro. Por que o silêncio aparece sempre localizado quando as vítimas não são cis? Enfim, o silêncio nunca protegeu ninguém. Apelo para que leiam, compartilhem e falem sobre esse caso.”

“Os mesmos elogios que vc faz a roger eu faço às 2 amigas agredidas, numa militância que tem mt mais minha admiração e que, por nunca ter acontecido de forma exibicionista, fica num lugar desprotegido em relação a Roger, como se vê no post do DU. penso, ainda, que se começamos a desconfiar das vozes das vítimas, estamos concordando com os discursos que colocam estas pessoas – frequentemente mulheres – como histéricas. falar das relações que Roger   tem com pessoas não dissidentes é tokenizar a situação. é dizer que ele não reproduz sistemas de opressão pq até tem amiges oprimides. pois, a título de exemplo, digo que chamar Ortinho para cantar no Estelita depois dele fazer apologia ao estupro é ser conivente com as palavras de Ortinho. pra citar apenas uma situação. sinto que as discussões sobre machismo no recife estão ganhando um ar de “estão indo longe demais, problematizando demais, expondo demais” porque mais uma vez continuam individualizando essas manifestações opressoras, que nem sempre são tão escancaradas, mas são sempre sistemáticas.”

“Se tem uma coisa que marcou o afastamento entre o Movimento Ocupe Estelita e o grupo Direitos Urbanos, ao meu ver, foi a prática centralizadora e a pouca preocupação no empoderamento coletivo de muitos dos membros do DU para com as pessoas interessadas em compartilhar esse debate. não é a toa que uma série de vezes, em tópicos do grupo, as conversas continuem centradas nos poucos membros da moderação ou que se estabeleça frequentemente uma postura hierárquica de espaço de consulta.
Hoje as mesmas pessoas, no curso de comentários sobre a nota que acusa o Som na Rural de conivência com transfobia, impediram o texto pelo uso de uma série de termos essenciais para se analisar o que ocorreu e impedir a prática de gaslighting com as vítimas. me surpreende que, quando elas estão construindo algo coletivamente não se interessem em empoderar todos dos conceitos que usam frequentemente, e quando se trata de um movimento que pode deixar seus privilégios desmantelados como o transfeminista frente ao cisativismo, não só houve falta de esforço em compreender o que foi dito – o que se caracteriza como falta de empatia – mas se usou também de um discurso que está sempre nas bocas de quem reproduz a opressão machista: histérica, confusa, mentirosa.”

Links úteis:

10 reflexões para denunciados de abusos e agressão machista
Tesoura para todas: Textos sobre violência machista nos movimentos sociais
Cenas ativistas não são espaços seguros para mulheres
Transfobia é a epidemia que os movimentos sociais devem combater
Mulher, a esquerda não liga para você!

CUCA TE PEGA publica Nota de Repúdio aos atos de Ademir Ferraz

Nós, do coletivo O CUCA TE PEGA, repudiamos os atos ocorridos no dia 24/04, às 19h, no auditório da ADUFERPE, durante o lançamento do livro “Heterofobia: Um risco para o Estado de Direito,” de autoria do professor Ademir Ferraz, vinculado ao departamento de Engenharia de Pesca da nossa universidade (Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE). Estamos juntxs aos/as estudantes da universidade que não aceitam uma educação que esteja disposta a compactuar com ideias retrógradas, que envolvam sentimentos violentos como os despertados por discursos de machismo, sexismo, homofobia/lesbofobia/transfobia, autoritarismo e qualquer tipo de intolerância às individualidades dxs nossxs estudantes. É preciso reiterar, também, a nossa consciência plena de que NÃO EXISTE heterofobia, professor. A luta social diária que vivenciamos ao desafiar o patriarcado não será atingida pela sua completa falta de bom senso. Sim, professor, não existe esse preconceito inverso. A heterofobia foi um termo criado por um ser humano que não sabe nada a respeito de diversidade de gênero.

Enxergamos o ato de violência cometido pelo “professor” (que deveria ser um agente de transformação social) como uma forma de evidenciação da problemática social de agressão às minorias e de imposição de uma cultura de desrespeito e opressão. Também é notório como o mesmo “professor” tenta reverter a situação e colocar xs ativistxs que o combateram como enquadradxs no seu diagnóstico de “heterófobas” – palavra que ele usa para designar nossxs alunxs –, mas estamos aqui para dizer que isso não passará, professor.

Nós, membros do coletivo e alunos da Universidade Federal Rural de Pernambuco, não aceitaremos que atitudes desumanas como essas voltem a acontecer na nossa casa. Nós estudamos aqui, estagiamos aqui, em alguns momentos da vida vivemos mais nesse ambiente acadêmico do que em qualquer outro lugar que pudéssemos querer. É aqui que criamos nossos vínculos sociais, tanto no âmbito pessoal como no profissional. É aqui o local que escolhemos para construir nossa formação acadêmica, pois acreditamos na capacidade de formação da UFRPE, na capacidade de construção, reconstrução e desconstrução.

Não deixaremos que atitudes como essa voltem a acontecer em nossa Rural. Não deixaremos que mais discentes sejam oprimidxs por pensamentos sexistas, machistas, homofóbicos, transfóbicos, patriarcais etc. Basta!

Agressão física e verbal na UFRPE não passará!
Misoginia não passará!
Lugar de bichas, travestis, trans, lésbicas etc, é na UNIVERSIDADE.
Somos contra o patriarcado e a opressão.
Há uma luta pela frente. Há braços!

Jovem mapuche transexual foi brutalmente agredida no Chile

Difícil realidade para dissidentes sexuais na América Latina, após a trágica agressão de Verônica Bolina no Brasil, infelizmente divulgamos a notícia de agressão de Cláudia, transexual da etnia indígena Mapuche que trabalha como prostituta nas ruas de Temuco, Chile

Segue a denúncia do MOVILH:

O Movimento de Integração e Libertação Homossexual (MOVILH) denúncia uma violenta agressão que uma mapuche trans teria sofrido contra sua identidade de gênero

Desde 13 de abril a jovem transexual Claudia Camila Nahuelhual Cayuqueo (34), se encontra internada no hospital Hernán Henríquez Aravena em Temuco, após ser brutalmente agredida quando exercia o comércio sexual próximo a esquina da rua Prat com Varas.

Segundo o relato da vítima, um sujeito, em razão da sua identidade de gênero, agrediu-a segurando sua cabeça contra o cimento do chão, deixando seu rosto completamente desfigurado.

A Rede Assistencial Antumawida está acompanhando à vítima desde que aconteceu o fato, explicou ao Movilh que a jovem deveria ter todo seu cabelo raspado para ser submetida a diversas operações, pois como resultado do ataque “sua mandíbula ficou fraturada e deverão ser postos pinos na sua cara”.

O caso já está sob conhecimento do Governo, que deliberou Mário Gonzalez, do Ministério do Interior para visita à vítima no último domingo.

Claudia que foi inicialmente hospitalizada como homem, teve, felizmente, este descuidado corrigido garantindo o respeito à sua identidade de gênero, conforme exige a Lei Zamudio e os artigos 34 e 21 do Ministério da Saúde chileno.

Fonte: Soy Chile

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