Sob Butler: Cruzando a Distopia Brasileira

Jota Mombaça
Trad.: Natalia Affonso

10 de Novembro: Judith Butler é assediada no aeroporto de Congonhas por um grupo de brasileiros conservadores, após uma semana de controvérsias por causa da sua participação no seminário “Os Fins da Democracia”, promovido pelo SESC Pompeia em São Paulo. Até antes da chegada de Butler no país, os conservadores já tinham começado a lutar contra a presença dela no país. Uma petição pública foi lançada e houve uma ampla campanha nas redes sociais contra a suposta contribuição da filósofa para a difusão da tão falada ideologia-de-gênero-que-está-arruinando-a-juventude-nacional como uma praga dentro das escolas e universidades.

De repente, a teoria queer deixa os corredores acadêmicos de onde surgiu para o centro de um debate acalorado travado na arena da já turbulenta esfera pública do país. As imagens de bruxas sendo queimadas pelas mãos de cristãos fundamentalistas, assim como os posters ofensivos acusando os textos de Butler de incitação à “pedofilia” e ao “anti-semitismo”, nos oferecem um registro visual da vocação surrealista das interpretações conservadoras quanto ao cenário atual do Brasil e do mundo. Sem nenhuma conexão com uma epistemologia realista, o cerne dessa narrativa é o pânico moral em relação à ameaça apresentada pelo crescimento de movimentos como o LGBTQIA e o transfeminismo Interseccional ao mundo que eles estão tentando preservar – mundo governado pelo binarismo de gênero, pela família heterosexual, e pela ficção do grande guerreiro nacional.

Protesto contra a aparição de Judith Butler na conferência “Os Fins da Democracia”, em São Paulo. O cartaz traz a filósofa como destruidora da identidade sexual dos filhos da hegemonia branca heterossexual

Junto com o episódio de Butler, o fechamento da “Queermuseu” (uma exposição comissionada pelo Santander Cultural, uma proeminente instituição de arte financiada pelo banco de mesmo nome), a perseguição pública do artista Wagner Schwartz por causa de sua performance La Béte (na qual seu corpo nu é instalado como uma plataforma interativa para o público), assim como a interdição legal da peça teatral de Renata de Carvalho, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu (baseada no roteiro original de Jo Clifford, no qual Jesus é performado como e por uma mulher trans), se tornaram simultaneamente os alvos mais visíveis dos ativistas de direita — agrupados em torno de um novo movimento alimentado por ideais antigos, o MBL — e seus aparatos institucionais (o governo em si), assim como os bastiões mais visíveis da resistência de esquerda contra a censura.

Protesto em Nova Iorque organizado por Cibele Vieira, intitulado NY Loves Queermuseu, projetou algumas das 250 obras da exposição nas fachadas do New Museum, Whitney Museum of American Art e do Bushwick Museum.

Apesar da luta contra a onda de censura moralista ser importante, por demonstrar como esses episódios de perseguição pública de artistas e intelectuais críticos estão atrelados a dispositivos de silenciamento e exclusão muito mais complexos, também é importante considerar, durante esse processo, a maneira como a própria cartografia da dissidência que está em jogo foi desenhada de acordo com os limites discursivos impostos pelos gestos conservadores de censura: as pessoas são levadas a acreditar que a arte está em risco, quando o risco artístico nada mais é do que a continuidade do próprio risco de vida daqueles corpos representados pelos inquisidores da direita como perigosos para o projeto nacional. Além disso, o espetáculo da censura pode facilmente fazer alguém acreditar que esse risco nunca antes esteve presente na história da democracia brasileira, como se a luta irrefreável de sujeitos negros, queer, trans, e femininos para apenas viver com dignidade não fosse um indicador da onipresença da supremacia branca, do fundamentalismo cisgênero, e da heteronormatividade, até mesmo durante os anos mais “progressistas” da democracia brasileira.

Por causa do apelo à imagem sagrada dos filhos-da-nação-que-devem-ser-protegidos, a cruzada pública dos conservadores de direita contra formas de expressão queer e feministas identifica as representações do corpo nu e as performances sociais não-normativas em termos de gênero e sexualidade como símbolo do espírito anti-nacionalista que está supostamente levando o país à ruína. O paradoxo é que essa narrativa apocalíptica simultaneamente esconde e reproduz a materialidade apocalíptica da política brasileira: enquanto no dia a dia, assim como nas dinâmicas das macro-estruturas, corpos não-normativos são aqueles que encontram de maneira mais escancarada a violência do cativeiro e da morte, as narrativas de direita afirmam que o que está sendo ameaçado atualmente é o direito do sujeito branco, heterossexual, e cisgênero de viver livremente às custas dos seus “outros”. Isto é, o medo dos guerreiros da moral quanto à possibilidade do mundo deles desmanchar perante o crescimento dos projetos políticos negros, queer, e feministas está profundamente ligado à reprodução social dos efeitos brutais deflagrados pelas estruturas correntes de poder contra a desobediência de gênero e as dissidências sexuais, especialmente aquelas situadas na interseção da pobreza e da discriminação racial.

Convite para o lançamento do livro: “Discriminação do gênero-homem no Brasil, em face à Lei Maria da Penha, na Livraria Praça de Casa Forte em Recife-PE. O evento, que não foi realizado no TJPE por questões de agenda, foi cancelado por pressão dos movimentos sociais que redigiram um documento onde acusam o livro de trazer, em seu título, o esvaziamento da Lei Maria da Penha e cumplicidade do judiciário com o feminicídio.

Diante de eventos como esse, pode-se dizer que a demanda emancipatória do momento é parar a marcha dessas projeções totalitaristas de ficção científica retrô, bloqueando seu caminho. O problema dessa formulação é que ela restringe o campo de batalhas ao território demarcado pelas cercas erguidas pelas cenas de sujeição dos conservadores de direita — ou, colocando de outra maneira: na tentativa de freá-los, as pessoas podem ficar presas nas ficções deles, respondendo perguntas que não podem ser respondidas senão nos termos deles e dentro do quadro de referências por eles imposto. Talvez o necessário aqui seja, em realidade, ser capaz de distinguir o que não pode ser silenciado pela perseguição hiper-moralista dos guerreiros da moral conservadora, e a continuação dos projetos inacabados de liberação negra, queer, trans, e feminista, para além do escopo totalitário.

Afinal de contas, o dilema distópico impulsionado pela intensa atividade dessas forças, pelo menos dentro do contexto brasileiro, foi antecipado até mesmo antes e por baixo da censura recente de obras de arte, exibições e seminários abertos ao público. Estava operante até mesmo antes e por baixo do que aconteceu com Judith Butler em São Paulo. Da perspectiva das pessoas as quais as expressões de gênero, desejo, sexualidade e corporalidade tem sido alvo dos códigos violentos da sociedade brasileira desde a sua formulação como democracia (e até mesmo antes e por baixo), os guerreiros distópicos dessa utopia militar sempre estiveram marchando. Nós — e aqui falo como uma bixa racializada não-binária nascida e criada no nordeste do Brasil durante o período pós-ditadura — vimos eles vindo. Ainda sim, ao invés de lutarmos sozinhas de nossas posições isoladas, escolhemos nos nutrir para não deixar que o crescimento deles nos parasse.

E nós precisamos continuar fazendo isso. Nós precisamos continuar imaginando. Precisamos continuar desbravando rotas de fuga no mapa sitiado da distopia brasileira; estudando como habitá-lo como encruzilhada e não como ponto de paragem — desviando, tumultuando, movimentando, como temos feito. Nós precisamos desarmar a guerra deles contra nossa imaginação radical para podermos sonhar com mundos que ainda não foram inventados, mesmo que toda semana os tornados reacionários do totalitarismo nos levem a defender coisas que nós já havíamos tomado por garantidas. Mesmo que eles nos forcem a defender o óbvio mil vezes, nós precisamos superar sua determinação, sonhando até mais além — acima, por trás, por dentro, contra e em volta do seu mundo de contenção. Nós precisamos incorporar, como intensidade e como matéria, o feitiço que nos permitirá falar em duas ou mais línguas ao mesmo tempo: uma que confronta a mordaça imposta pelos guerreiros da moral conservadora; e outra que nos leva para além do que eles haviam planejado para nós .

Não podemos deixar que eles nos parem agora.

(E não vamos!)

Este texto foi comissionado por e-flux conversations, e originalmente publicado em inglês no dia 18-12-2017. A tradução foi feita de forma independente e cedida pela autora ao blogue Monstruosas.

Prestação de contas: MoNSTRuoSaS: Tesões Apocalípticos nas Ruínas do Heterocapitalismo

Como ação política autônoma articulada em rede e com chamada de contribuição solidária, a 2ª edição do festival Monstruosas tinha como objetivo realizar o evento independente do valor final de arrecadação. Contudo a organização foi surpreendida com, além do apoio financeiro, o de serviços, possibilitando entre outras coisas, fornecer ajuda de custo para as atrações da programação e para equipe de produção. As contribuições e apoio foram dados em perspectiva ocultista, sem pretensão de contrapartida por meio de promoção ou propaganda por parte da equipe organizadora.

Portanto, nossos agradecimentos vão além dos valores e serviços aqui recebidos, mas principalmente por poder vivenciar, no percalço do colapso da civilização, a construção de ações autônomas que estimulam a solidariedade em congruência com uma economia da dádiva, presente nas culturas incivilizadas vítimas da colonização. Desta forma, o festival propõe uma alternativa material e concreta contra a assimilação queer e o pink money preservado a autonomia e a dissidência sexual enquanto política anticapitalista.

ENTRADA SAÍDA DETALHES
R$ 100,00 R$ 139,00 Transporte (ARTISTAS)
R$ 100,00 R$ 130,00 Transporte (ARTISTAS)
R$ 300,00 R$ 250,00 Camisetas
R$ 5,00 R$ 40,00 Papeis (CAPA ZINES)
R$ 50,00 R$ 20,00 Tintas (SERIGRAGIA)
R$ 100,00 R$ 50,00 Transporta público
R$ 40,00 R$ 70,00 Adesivos
R$ 15,00 R$ 100,00 Ajuda de custo OFICINA
R$ 240,00 R$ 100,00 Ajuda de custo OFICINA
R$ 20,00 R$ 100,00 Transporte artista
R$ 45,00 R$ 100,00 Transporte artista
R$ 700,00 R$ 50,00 Comida EQUIPE
R$ 20,00 R$ 45,00 Ajustes técnicos (INFRAESTRUTURA)
R$ 300,00 R$ 400,00 Cachê (ARTISTAS)
R$ 400,00 Ajuda de custo (EQUIPE)
R$ 41,00 Caixa Distro Dysca
R$ 2.035,00 R$ 2.035,00
ENTRADA R$ 2.035,00
CUSTOS R$ 1.194,00
CACHÊ ARTISTAS R$ 400,00
EQUIPE R$ 400,00
SALDO FINAL R$ 41,00

O saldo final de R$ 41,00 entrou para o caixa da Distro Dysca, plataforma de agitação política que distribuí nossas publicações, bem como a renda obtida por meio de contribuição espontânea dos zines, camisetas e adesivos resultando num valor de R$ 186,00.

 

CUCA TE PEGA publica Nota de Repúdio aos atos de Ademir Ferraz

Nós, do coletivo O CUCA TE PEGA, repudiamos os atos ocorridos no dia 24/04, às 19h, no auditório da ADUFERPE, durante o lançamento do livro “Heterofobia: Um risco para o Estado de Direito,” de autoria do professor Ademir Ferraz, vinculado ao departamento de Engenharia de Pesca da nossa universidade (Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE). Estamos juntxs aos/as estudantes da universidade que não aceitam uma educação que esteja disposta a compactuar com ideias retrógradas, que envolvam sentimentos violentos como os despertados por discursos de machismo, sexismo, homofobia/lesbofobia/transfobia, autoritarismo e qualquer tipo de intolerância às individualidades dxs nossxs estudantes. É preciso reiterar, também, a nossa consciência plena de que NÃO EXISTE heterofobia, professor. A luta social diária que vivenciamos ao desafiar o patriarcado não será atingida pela sua completa falta de bom senso. Sim, professor, não existe esse preconceito inverso. A heterofobia foi um termo criado por um ser humano que não sabe nada a respeito de diversidade de gênero.

Enxergamos o ato de violência cometido pelo “professor” (que deveria ser um agente de transformação social) como uma forma de evidenciação da problemática social de agressão às minorias e de imposição de uma cultura de desrespeito e opressão. Também é notório como o mesmo “professor” tenta reverter a situação e colocar xs ativistxs que o combateram como enquadradxs no seu diagnóstico de “heterófobas” – palavra que ele usa para designar nossxs alunxs –, mas estamos aqui para dizer que isso não passará, professor.

Nós, membros do coletivo e alunos da Universidade Federal Rural de Pernambuco, não aceitaremos que atitudes desumanas como essas voltem a acontecer na nossa casa. Nós estudamos aqui, estagiamos aqui, em alguns momentos da vida vivemos mais nesse ambiente acadêmico do que em qualquer outro lugar que pudéssemos querer. É aqui que criamos nossos vínculos sociais, tanto no âmbito pessoal como no profissional. É aqui o local que escolhemos para construir nossa formação acadêmica, pois acreditamos na capacidade de formação da UFRPE, na capacidade de construção, reconstrução e desconstrução.

Não deixaremos que atitudes como essa voltem a acontecer em nossa Rural. Não deixaremos que mais discentes sejam oprimidxs por pensamentos sexistas, machistas, homofóbicos, transfóbicos, patriarcais etc. Basta!

Agressão física e verbal na UFRPE não passará!
Misoginia não passará!
Lugar de bichas, travestis, trans, lésbicas etc, é na UNIVERSIDADE.
Somos contra o patriarcado e a opressão.
Há uma luta pela frente. Há braços!

Agressão e violência no lançamento do livro sobre heterofobia na UFRPE

1418389489As 19hrs do dia 24/04, ocorreu no auditório da ADUFERPE, o lançamento do livro “Heterofobia: Um risco para o Estado de Direito” do professor vinculado ao Departamento de Pesca, Ademir Ferraz, com distribuição gratuita para os presentes. Tal livro, que insiste em usar o termo HOMOSSEXUALISMO, defende entre outros absurdos, a ideia que as pessoas homossexuais são desequilibradas psicologicamente e que “buscam consciente ou inconscientemente a inversão da ordem estabelecida, carregando o mesmo ódio, que aos homofóbicos é atribuído, com a intenção de provocar um banho de sangue tal qual aconteceu na Alemanha nazista.” Ao saber da atividade, dissidentes sexuais, compareceram no lançamento com a clara intenção de protestar e repudiar a obra em questão.

Ademir inicia as atividades se colocando como isento e imune à qualquer atitude de preconceito e, da mesma forma que Idelber Avelar, justifica esta postura pela possível falta de processos administrativos na universidade que atestem sua postura preconceituosa, opressora e violenta.

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Após 30 minutos escutando os dejetos verbais de Ademir, baseados num entendimento completamente equivocado sobre as teorias psicológicas, sociológicas, antropológicas e médicas, foi iniciado o protesto, expressando como resposta a seguinte frase: DESEQUILIBRADO É VOCÊ! As ativistas tentaram localizar politicamente o discurso de Ademir, que, por sua vez, se referiu ao combate e repúdio incitado pelas mesmas como atestado de desequilíbrio. Ao dizer que o livro representa uma violência à comunidade sexo dissidente uma das ativistas queimou a obra firmando simbolicamente a disposição combativa contra às posturas machistas e autoritárias do professor.

Mesmo diante dos protestos, Ademir insistiu em dar continuidade com seu show de violência e estupidez, fazendo as ativistas se dirigiram a caixa de livros, a fim de resgatar um exemplar para usá-lo como prova material. Neste momento os garçons da empresa Graça Santos Buffet se dirigiram até as ativistas e iniciaram o processo de violência, a mando de Ademir, batendo, ferindo, rasgando as roupas, arrastando pelos cabelos e empurrado-as para fora da ADUFERPE. Os garçons foram imediatamente repreendidos por um diretor da ADUFERPE, porém na discussão travada contra a violência cometida, o professor Ademir ainda tentou agredir fisicamente uma das diretoras da associação de docentes, calúniou as ativistas e visivelmente violento e desequilibrado proferiu ameaças de morte.

Como se sabe Ademir é da coronelista família Ferraz – apesar de também ser persona non grata entre seus parentes por ter um talento ímpar para cultuar desafetos, confusões e brigas – e esta é conhecida da sociedade pernambucana pelos inúmeros casos de violência e assassinatos estampados nas páginas dos jornais locais. A família está atrelada ainda à dominação política coronelista agrícola e comercial em municípios no sertão de Pernambuco e pela brutal cultura de violência e machismo na qual submete seus membros. Também é bem sabido que Ademir profere gratuitamente ameaças de morte e insultos machistas contra as pessoas que ele discorda e é questionado.

Ao expressar sua versão dos fatos nas redes sociais e dizer-se atacado e agredido Ademir revela a perigosa e covarde estratégia da cultura opressora hegemônica  de afirmar o autoritarismo homossexual, recusando-se em reconhecer a própria violência e discriminação. Na realidade este é tanto um mecanismo de defesa do ego quanto um deslocamento/deturpação para garantir o livre exercício de sua violência. No sexismo esta negação é usada para manter e legitimar estruturas violentas de exclusão: “Elxs querem tomar o que é Nosso” “Ditadura Gay” “As mulheres querem dominar os homens”, então as mulheres, bichas, lésbicas, transsexuais, transgêneras e intersexuais tornam-se a imagem que o macho não quer ser relacionado, a de opressor, enquanto as pessoas ligadas a ideia de feminino se transformam em inimigas intrusivas dos padrões corretos e da moral cristã. Em outras palavras, o que fica claro é que a estratégia de perpetuação do machismo consiste em transformar o macho violento cheio de privilégios em vítima compassiva e oprimida e os setores oprimidos em tiranos.”

Este é mais um fato que atesta a extrema hostilidade existente no campus da UFRPE à comunidade sexo dissidente e a postura da instituição em não combater as violências proferidas pelos seus funcionários e por sua estrutura burocrática. Questionamos a ADUFERPE o espaço dado ao professor para lançar um livro com este teor político e mesmo cientes que o argumento da associação dos docentes é no sentido de fazer valer o direito do professor filiado de usar o espaço, indagamos aos diretores da ADUFERPE se o mesmo espaço seria dado para propagar o conceito de nazifobia, antisocialismo e antidemocracia, por exemplo. Estando certas que o consentimento da atividade se dá mesmo diante da posição contrária de vários diretores, alertamos a completa falta de debate a cerca das opressões e estigmatizações que circula a população sexo dissidente, mostrando uma esquerda ainda insensível com as violências e subjugações provenientes de uma estrutura machista.

Este livro, é a resposta de Ademir contra as posturas combativas de vários organismos políticos – entre eles a ADUFERPE – pelas suas expressões homofóbicas nas redes sociais e na universidade. Apesar de publicamente ter se declarado arrependido, na prática a “desculpa de joelhos do professor,” se dá com o lançamento de um livro que desqualifica político-psicologicamente homossexuais. Na ocasião, a reitoria publicou nota oficial afirmando que não concorda com as declarações e que iria tomar as providências cabíveis, garantindo amplo direito de defesa e manifestação a todas as partes.

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Liberdade de expressão não é liberdade de opressão. Discriminação, humilhação, patologização e inferiorização da população sexo dissidente além de representarem a sofisticação do discurso de ódio, são exatamente os princípios que fundamenta todas as violências, agressões e extermínio que lésbicas, travestis, mulheres e bichas estão submetidas pela estrutura patriarcal. É inadmissível e repugnante que uma universidade federal se apresente cúmplice destas violências entendendo a livre expressão de ódio e repulsa contra sexo dissidentes como uma simples opinião. Em tempos de ascensão evangélica no legislativo, entendemos que uma obra como esta – mesmo tão mal escrita e com tantas incoerências acadêmicas – pode servir de base para vários grupos políticos conservadores justificar suas ações violentas e pior ser referência para elaboração de leis que controlem ainda mais a população sexo dissidente, uma vez que a obra argumenta que o Estado de Direito está em risco graças a combatividade anti-heterosexista.

Por fim, gostaríamos de lembrar que a política da Universidade consiste em criminalizar performances artísticas questionadoras dos padrões de gênero e da heterossexualidade compulsória enquanto abriga e faz vista grossa aos funcionários homofóbicos e misóginos, protegendo e não indo contra um docente que escreve um livro pretendendo atestar a inferioridade psíquica das homossexuais combativas do sexismo tão violento contra nossos corpos. Neste momento de ameaça à liberdade das dissidentes sexuais, vemos a importância de convocar todos coletivos e pessoas apoiadoras da dissidência sexual, a organizarmos um grande ato público contra o professor e sua obra e contra a cumplicidade da UFRPE com as violências cometidas pelas pessoas que lá trabalham.

PELA EXONERAÇÃO DE ADEMIR FERRAZ
POR UMA COMBATIVIDADE ATIVA CONTRA A VIOLÊNCIA HETEROSSEXISTA
TODO REPÚDIO À CUMPLICIDADE DA UFRPE COM A VIOLÊNCIA HETEROSSEXISTA

DACS UFPE divulga nota de repúdio contra a UFRPE

Depois da nota de repúdio contra a censura da performance TRANS(torno)ISTO ser entendida como uma declaração de guerra pelo DACS-UFRPE, ativistas da dissidência sexual buscaram apoio de diversos organismos políticos com o objetivo de levantar resistência contra as retaliações da instituição e questionar de maneira construtiva, as posturas e medidas tomadas pelo DACS-UFRPE, que até o momento não entende o veto a performance como censura,  expondo, não só uma problemática a cerca da ideia do termo, mas sobretudo, a incapacidade de perceber que não existe coletivos e pessoas imunes de reproduzir comportamentos e posições autoritárias.

Segue abaixo a nota do Diretório Acadêmico de Ciências Sociais da UFPE:

NOTA DE REPÚDIO CONTRA Á POSTURA DA UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO E QUESTIONAMENTO AO DIRETÓRIO ACADÊMICO DE CIÊNCIAS SOCIAIS.

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O DACS-UFPE entende a performance TRANS(torno)ISTO, apresentada no dia 19/03 no Centro de Ensino e Graduação – CEGOE, na semana de recepção de calourxs de Ciências Sociais da UFRPE como uma intervenção artística de cunho político. Enquanto Diretório com função de garantir o direito dos estudantes de ciências sociais, não poderíamos deixar de nos posicionarmos contra a criminalização e medidas tomadas durante e após a intervenção.

Vivenciamos diariamente dentro e fora da Universidade a opressão e a censura diante de tudo que não se encaixa no modelo de ideologia normativa, que garante e reforça privilégios de grupos que, por existir, oprimem e excluem. Acreditamos que a Universidade age dentro de um modelo de Instituição controladora do corpo e não entendemos, nem compactuamos, com qualquer tipo de censura e medidas de imposição, como as que ocorreram. Compreendemos que as posturas da Instituição levantam um precedente perigoso devido às tentativas de criminalização da criação artística, como também, no que se relaciona ao modo como este ambiente acadêmico lidará com os questionamentos, comportamentos e produção de conhecimento críticos, contestadores e “não científicos”.

Entendemos também que boa parte das acusações e preconceitos em relação à apresentação existem por conta das cenas de nudez que se apresentam de maneira inconveniente a muitos olhares. Isso ocorre, principalmente, porque a moral hegemônica/dominante na qual somos “socializados” tem como um de seus fundamentos a repressão da expressão corporal aprisionada pela culpa. Uma moral heteronormativa e patriarcal que recrimina a ciência e a arte quando não servem estritamente à burguesia, aos heterossexuais, aos brancos e aos homens-cis.

Somos contra a postura de Instituições, manifestações e atos que reproduzem esta moral vil que serve apenas a esta parte da sociedade. Sentimo-nos responsáveis por combater ações repressoras, preconceituosas e excludentes. Somos a favor do corpo, da singularidade e não apoiaremos nem nos calaremos diante de instituições e atos que reproduzam este tipo de pensamento que não abre espaço ao diálogo. Propomos uma Universidade incentive a crítica, a inventividade, a autonomia e a resistência.

Vemos a discussão e apontamentos suscitados pelo ativismo da dissidência sexual como uma pauta extremamente pertinente, por isto, prestamos apoio e solidariedade as performers envolvidas, bem como solicitamos o cancelamento dos processos e inquéritos policiais e a imediata abertura de um grande debate sobre o fazer artístico e produção de conhecimento. Dentro da Universidade trabalhamos com multiculturalidade e representatividade e, assim como o DACS-UFRPE, também acreditamos que há diversas formas de desconstrução quando se trata do debate acerca de gênero e sexualidade. Dessa maneira, pensamos que a performance TRANS(torno)ISTO é uma forma combativa e direta de possibilitar essa desconstrução e que, por essa razão, não deveria ser vetada nem punida. E o que chamam de “elementos não-convencionais”, chamamos de elementos reais e existentes que são proibidos todos os dias em nossa sociedade.

Nos propomos a participar de um grande debate com o DACS-UFRPE e com os demais envolvidos. Por fim, apoiamos a performance e valoramos positivamente sua combatividade. Além disso, repudiamos o machismo e a transfobia da parte de quem representa a instituição enquanto “seguranças”: acreditamos que estes, sim, devem ser punidos. Machistas, racistas, homo, lesbo, bi e transfóbicos não passarão!

Por uma Universidade que defenda a multiculturalidade e a representatividade de Todxs

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