7 Marchas dissidentes do Orgulho LGBT na América Latina

Emma Álvarez Brunel
Tradução: Grupo de Estudos Anarquistas Maria Lacerda Moura
Revisão: Monstruosas

Em 28 de junho de 1969, o bar Stonewall Inn foi cenário de um enfrentamento entre policiais e pessoas trans, travestis, lésbicas e bichas. Daí a cada ano se celebra em junho a marcha do Orgulho LGBT.

O bar Stonewall Inn, localizado em Nova Iorque, acolhia a pessoas sexodissidentes, marginalizadas por sua condição de classe e raça, acolhiam muitas latinas e afrodescendentes, pessoas sem teto, etc. A polícia fazia constantes batidas a este espaço para deter travestis e pessoas sem documentos, como forma de “limpeza social”. Essa noite, a raiva e o cansaço pela perseguição levou às pessoas que frequentavam o bar a resistir às prisões e ao fechamento do bar, exigindo espaços para visibilizar a diversidade sexual e de gênero. Os enfrentamentos duraram mais de 2 dias e agruparam mais de 2 mil manifestantes contra 400 policiais. A partir deste incidente se realizaram importantes manifestações de rua, como a primeira marcha do orgulho LGBT um ano depois, na cidade de Nova Iorque, organizada pela Gay Liberation Front (Frente de Liberação Gay), e se formaram coletivos políticos travestis, gays e lésbicos.

Na cidade do México, a primeira Marcha do Orgulho LGBT acontece no ano de 1979, mesmo ano em que se pubica “Ojos que da pánico soñar”, de José Joaquín Blanco. Este texto, que seria considerado um manifesto homossexual, criticava a normatização da diversidade sexual, através da imitação da heterossexualidade monogâmica, sem se aventurar a se inventar outras vidas fora desse esquema. Denunciava ademais a falta de justiça e as alianças que os homossexuais de classe média faziam com sua própria classe em vez de com os homossexuais pobres. Por último convocava para o prazer radical e a união entre “a cama e o trabalho, a intimidade e a política, o ato sexual e a solidariedade humana”.

Atualmente, as marchas do Orgulho ocorrem em muitos países, mas sabemos que seu sentido mudou significativamente. Em anos recentes marchamos junto a bares, empresas que se dizem LGBTI friendly, embaixadas de países como Estados Unidos e Israel, instituições do governo e partidos políticos, nos quais, em vez de celebrar sua participação, devíamos estar jogando tinta na cara. Muitas vezes, nas convocatórias às marchas se leem comentários que reforçam a misoginia, a homo/lesbo/transfobia e o desprezo por quem não respeita “os bons costumes”.

Em vez de nos juntarmos para celebrar o capitalismo rosa, sentimos necessidade de seguir mostrando a raiva frente aos feminicídios e aos crimes de ódio, a violência sexual, as violências que vivemos no dia a dia, a falta de justiça, e seguir nos organizando contra este sistema de morte. Hoje compartilhamos alguns exemplos de protestos dissidentes das marchas oficiais do Orgulho LGBT na América Latina, esperando poder ampliar a lista com mais informação de quem tenha conhecimento de manifestações deste tipo ou com manifestações futuras. Esperamos ademais, que sigamos construindo a partir da raiva e da crítica, a dissidência e a autogestão, antimercado rosa e sem Estado.

1. Cidade de México, 2014.
No ano de 2014, o Bloque Rosa (Bloco Rosa) publicou dois artigos em Djovenes, em sua coluna quinzenal Transtextual: “La marcha del orgullo está secuestrada” e “Transformar la marcha del Orgullo”, sobre a corrupção do Comitê Organizador da Marcha do Orgulho LGBTTTI e a necessidade de seguir mostrando a raiva contra as violências e os crimes de ódio que vivem as pessoas dissidentes do regime cisheterossexual. Como resultado disso, alguns membres do dito Comitê renunciaram. Além disso, organizou-se um contingente feminista-dissidente que encabeçou a marcha e denunciava a falta de justiça nos casos de Edgar Sora, Yakiri Rubio, Agnés Torre, Alejandra Gil, entre outros. Neste contingente participaram coletivos como Bloque Rosa, Gafas Violetas1, Anarcoqueer, Coletivo Poliamor, AVE de México, Maricas AntiesCiudad de México, 2014.pecistas, Puta Colectiva, Hombres XX, etc. Recomendamos verificar aqui o texto lido ao início da marcha do Orgulho desse ano. E aqui um vídeo onde podem ver algumas imagens da agitação. Mais adiante, a revista Proceso lançaria um artigo criminalizando a resistência antiassimilacionista por “vandalizar do Hemiciclo a Juárez” e as coletivas responderiam neste comunicado.

2. Buenos Aires, Argentina, 2016.
Em 26 de novembro de 2016, um grupo de coletivas feministas se organizam para intervir na marcha do orgulho em Buenos Aires, fazendo um contingente. Entre as participantes estavam Colectiva Lohana Berkins, Democracia Socialista, Desde el Fuego CABA, Furia Trava, HIEDRAH Club de Baile, Independientes, Partido Comunista, Tortas de Barrio e FOL em La Brecha.

As participantes deste contingente anunciaram seu descontentamento porque os organizadores oficiais da marcha tinham alianças com o Estado, algo com que não se identificavam, como mostra a entrevista de rádio a Nicolás Cuello.

Entre suas palavras de ordem estavam Macri (o presidente argentino) é fome, ajuste e repressão! Basta de travesticídios (como o ocorrido contra a ativista travesti Diana Sacayán)! Migrar é um direito humano! Separação da Igreja e do Estado! E Aborto legal, livre e gratuito!

Denunciavam também a precarização da vida pelo desemprego, a inflação, o empobrecimento, o desmantelamento de programas sociais, a discriminação no trabalho e em outros ambientes, o aumento da repressão e a intervenção pública da Igreja Católica contra os direitos das mulheres e das pessoas da diversidade sexual. O comunicado completo pode ser lido aqui.

3. Rubias Para El Centenrario, Santiago, Chile, 2011.
Para a marcha do Orgulho na capital chilena em 2011, realizou-se o protesto “Rubias para el Bicentenario”. Na ação a Colectiva Universitaria de Disidencia Sexual (CUDS) organizou uma “peluquería de barrio” (‘salão de beleza de bairro’) onde descoloriam o cabelo das pessoas que queriam e as convidavam a mudar de nome. Esta ação era uma crítica ao ideal de sujeito nacional, que evidencia o branqueamento do mestiço, no contexto da celebração do bicentenário da independência chilena. Desta maneira, faziam uma crítica também ao pensamento de direita racista e classista, tão presente na “comunidade LGBT”. O vídeo de “Rubias para el bicentenario” pode ser visto aqui.

4. Fin De Este Orgullo Principio de Nuestro Caos, Neuquén, Argentina, 2016.
Com o titulo “FIN DE ESTE ORGULLO, PRINCIPIO DE NUESTRO CAOS”. o agrupamento de lésbicas “Potencia Tortillera”2 convocou um contingente em Neuquén, Argentina.

Parte do pronunciamento critica o fazer político das organizações LGBT: “Porque as organizações lgbttti escolhem disputar espaços nas instituições estatais, enclausurando e confinando nossos corpos, nossas vidas e desejos em leis e políticas de igualdade. Porque propõem o Estado como fiador dos afetos. Porque decoram com luzinhas coloridas as paredes do prédio do governo onde recordamos com pichações os nomes dxs mortxs, deixando nas sombras a memória púbica de nossas dores, ao mesmo tempo que essas mesmas paredes protegem aos assassinos.” Continuam com uma crítica que o Orgulho nos leve à normatização e a buscar o matrimônio, enquanto elas, sapatas feministas, propõem o caos. “CAOS porque nossos corpos e desejos transbordam, explodem, contaminam tudo, querem tudo. Porque nossos suores, salivas, fluxos, raivas não cabem nas suas leis”.

O texto completo com imagens pode ser lido aqui.

5. Acampe Travesti, Buenos Aires, Argentina, 2009.
Na noite anterior à marcha do Orgulho LGBT de Buenos Aires, um grupo de coletivas e ativistas organizaram um acampamento na Plaza de Mayo para denunciar a situação de violências que vivem as travestis na Argentina, nas palavras da ativista Lohana Berkins “as irmãs mais pobres e castigadas da comunidade”. Enfatizaram que 70% das travestis argentinas não terminam a escola primária e a expectativa de vida entre esta população é de somente 32 anos.

Também insistiram em recuperar a marcha de sua mercantilização para fazer dela um espaço de luta. Para a noite se programaram diversos eventos, como uma coletiva de imprensa, oficinas de construção de memória coletiva trans, música, performance, etc. O pronunciamento se encontra aqui.

Na manhã seguinte participaram como “contramarcha” dentro do evento oficial, tendo palavras de ordem e posturas antipatriarcais e anticapitalistas, como se pode conferir no seguinte link.

6. Contramarcha, Ciudad de México, 2016.
Depois de se fazer uma assembleia feminista e das dissidências de sexo e de gênero, convocou-se uma contramarcha.

Enquanto a marcha oficial se iniciava, caminhando sobre a Avenida Reforma, em direção ao centro da cidade, foi interrompida à altura do senado da República por grupos feministas e dissidentes que formavam a contramarcha, que impediram a passagem dos carros alegóricos por alguns minutos para ler seu pronunciamento, todes, todos e todas vestidas de preto, encapuchadas, com o punho erguido pintado de roxo.

Entre as grandes críticas que se fazia à marcha oficial estava a insatisfação contra um grupo de ativistas LGBT que havia participado umas semanas antes em uma reunião oficial com o presidente Enrique Peña Nieto, celebrando o fato como “um dia histórico” para a comunidade LGBT.

“Nós não queremos fotos hipócritas ao lado de um assassino. Nós queremos que pare seu regime mortal, sustentado por morte e repressão: de 43 corpos desaparecidos, de milhares de mulheres assassinadas, de professoras e professores espancados, de pessoas que andam em direção ao precipício da precarização, de 10 mortes, 20 mortes, de milhares de narcomortes. Nós não podemos embarcar em seu suposto trem do progresso, nós não marchamos sozinhas, caminhamos acompanhando a outros processos, nos reconhecemos em outras, outros, outres, que não têm justiça, nem verdade: as indígenas, as operárias, as professoras, as migrantes, as feministas, as racializadas, a diversidade funcional3, as outras lutas”, dizia em seu pronunciamento.

Por outro lado, estava a denúncia à Cidade do México, que hipocritamente se declarava “Ciudad LGBT Amigable”: “A cidade também se declara gay friendly. Sua amizade se limita aos gays ricos. Aos corpos normatizados e aceitáveis. Aos bairros gentrificados, os quais utilizam a força policial e econômica para retirar de seus lugares a quem menos tem. Frente a essa realidade que nos segrega e despolitiza, as mortes e os assassinatos continuam. E todavia não há justiça, nem se tem garantido a não repetição dos danos.”

Depois de ler o pronunciamento e cantar algumas palavras de ordem, o grupo de manifestantes avançou em sentido contrário ao contingentes oficial.

7. La Otra Marcha, Chile, 2003
“La Otra Marcha” se organizou pela primeira vez no ano de 2003, quando se apresentaram fortes tensões entre organizações LGBT e o bloco lesbofeminista, ano em que a organização do orgulho decidiu usar o slogan “La patria gay”.

Se repetia no ano seguinte como contingente e em 2005 decidiram marchar como última ala da marcha oficial. monstruosas

No ano passado a crítica foi direta contra as organizações Iguales e Movilh, acusadas de priorizar ao matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, enquanto se esqueciam os crimes de ódio. Também as acusava de reproduzir o machismo entre os homens gays, o que resulta em violência e dupla marginalização para travestis e mulheres lésbicas. Pode-se verificar mais informação neste link e neste outro.

Este texto foi publicado em 6 de junho de 2017 no site Joterismo: Feminismos Jotos e Analquismo traduzido livremente pelo Grupo de Estudos Maria Lacerda de Moura e revisado pela Monstruosas.

1 Faz referência à metáfora das ‘lentes violetas’. Trata-se de como o feminismo te faz perceber violências e nuances da realidade patriarcal que não percebíamos antes.Faz referência à metáfora das ‘lentes violetas’. Trata-se de como o feminismo te faz perceber violências e nuances da realidade patriarcal que não percebíamos antes.

2 O termo tortillera e variações como torta e tortera são xingamentos usados em regiões onde se fala espanhol para se referir a lésbicas, recentemente foram ressignificados por movimentos sociais e coletivos como ‘Tortas de Barrio’ e ‘Potencia Tortillera’, de forma análoga à palavra portuguesa sapatão.

3 Diversidad funcional é uma alternativa a termos pejorativos como “discapacidad” [deficiência/incapacidade] que tem começado a se utilizar por iniciativa das próprias pessoas afetadas nas regiões onde se fala espanhol.

Sob Butler: Cruzando a Distopia Brasileira

Jota Mombaça
Trad.: Natalia Affonso

10 de Novembro: Judith Butler é assediada no aeroporto de Congonhas por um grupo de brasileiros conservadores, após uma semana de controvérsias por causa da sua participação no seminário “Os Fins da Democracia”, promovido pelo SESC Pompeia em São Paulo. Até antes da chegada de Butler no país, os conservadores já tinham começado a lutar contra a presença dela no país. Uma petição pública foi lançada e houve uma ampla campanha nas redes sociais contra a suposta contribuição da filósofa para a difusão da tão falada ideologia-de-gênero-que-está-arruinando-a-juventude-nacional como uma praga dentro das escolas e universidades.

De repente, a teoria queer deixa os corredores acadêmicos de onde surgiu para o centro de um debate acalorado travado na arena da já turbulenta esfera pública do país. As imagens de bruxas sendo queimadas pelas mãos de cristãos fundamentalistas, assim como os posters ofensivos acusando os textos de Butler de incitação à “pedofilia” e ao “anti-semitismo”, nos oferecem um registro visual da vocação surrealista das interpretações conservadoras quanto ao cenário atual do Brasil e do mundo. Sem nenhuma conexão com uma epistemologia realista, o cerne dessa narrativa é o pânico moral em relação à ameaça apresentada pelo crescimento de movimentos como o LGBTQIA e o transfeminismo Interseccional ao mundo que eles estão tentando preservar – mundo governado pelo binarismo de gênero, pela família heterosexual, e pela ficção do grande guerreiro nacional.

Protesto contra a aparição de Judith Butler na conferência “Os Fins da Democracia”, em São Paulo. O cartaz traz a filósofa como destruidora da identidade sexual dos filhos da hegemonia branca heterossexual

Junto com o episódio de Butler, o fechamento da “Queermuseu” (uma exposição comissionada pelo Santander Cultural, uma proeminente instituição de arte financiada pelo banco de mesmo nome), a perseguição pública do artista Wagner Schwartz por causa de sua performance La Béte (na qual seu corpo nu é instalado como uma plataforma interativa para o público), assim como a interdição legal da peça teatral de Renata de Carvalho, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu (baseada no roteiro original de Jo Clifford, no qual Jesus é performado como e por uma mulher trans), se tornaram simultaneamente os alvos mais visíveis dos ativistas de direita — agrupados em torno de um novo movimento alimentado por ideais antigos, o MBL — e seus aparatos institucionais (o governo em si), assim como os bastiões mais visíveis da resistência de esquerda contra a censura.

Protesto em Nova Iorque organizado por Cibele Vieira, intitulado NY Loves Queermuseu, projetou algumas das 250 obras da exposição nas fachadas do New Museum, Whitney Museum of American Art e do Bushwick Museum.

Apesar da luta contra a onda de censura moralista ser importante, por demonstrar como esses episódios de perseguição pública de artistas e intelectuais críticos estão atrelados a dispositivos de silenciamento e exclusão muito mais complexos, também é importante considerar, durante esse processo, a maneira como a própria cartografia da dissidência que está em jogo foi desenhada de acordo com os limites discursivos impostos pelos gestos conservadores de censura: as pessoas são levadas a acreditar que a arte está em risco, quando o risco artístico nada mais é do que a continuidade do próprio risco de vida daqueles corpos representados pelos inquisidores da direita como perigosos para o projeto nacional. Além disso, o espetáculo da censura pode facilmente fazer alguém acreditar que esse risco nunca antes esteve presente na história da democracia brasileira, como se a luta irrefreável de sujeitos negros, queer, trans, e femininos para apenas viver com dignidade não fosse um indicador da onipresença da supremacia branca, do fundamentalismo cisgênero, e da heteronormatividade, até mesmo durante os anos mais “progressistas” da democracia brasileira.

Por causa do apelo à imagem sagrada dos filhos-da-nação-que-devem-ser-protegidos, a cruzada pública dos conservadores de direita contra formas de expressão queer e feministas identifica as representações do corpo nu e as performances sociais não-normativas em termos de gênero e sexualidade como símbolo do espírito anti-nacionalista que está supostamente levando o país à ruína. O paradoxo é que essa narrativa apocalíptica simultaneamente esconde e reproduz a materialidade apocalíptica da política brasileira: enquanto no dia a dia, assim como nas dinâmicas das macro-estruturas, corpos não-normativos são aqueles que encontram de maneira mais escancarada a violência do cativeiro e da morte, as narrativas de direita afirmam que o que está sendo ameaçado atualmente é o direito do sujeito branco, heterossexual, e cisgênero de viver livremente às custas dos seus “outros”. Isto é, o medo dos guerreiros da moral quanto à possibilidade do mundo deles desmanchar perante o crescimento dos projetos políticos negros, queer, e feministas está profundamente ligado à reprodução social dos efeitos brutais deflagrados pelas estruturas correntes de poder contra a desobediência de gênero e as dissidências sexuais, especialmente aquelas situadas na interseção da pobreza e da discriminação racial.

Convite para o lançamento do livro: “Discriminação do gênero-homem no Brasil, em face à Lei Maria da Penha, na Livraria Praça de Casa Forte em Recife-PE. O evento, que não foi realizado no TJPE por questões de agenda, foi cancelado por pressão dos movimentos sociais que redigiram um documento onde acusam o livro de trazer, em seu título, o esvaziamento da Lei Maria da Penha e cumplicidade do judiciário com o feminicídio.

Diante de eventos como esse, pode-se dizer que a demanda emancipatória do momento é parar a marcha dessas projeções totalitaristas de ficção científica retrô, bloqueando seu caminho. O problema dessa formulação é que ela restringe o campo de batalhas ao território demarcado pelas cercas erguidas pelas cenas de sujeição dos conservadores de direita — ou, colocando de outra maneira: na tentativa de freá-los, as pessoas podem ficar presas nas ficções deles, respondendo perguntas que não podem ser respondidas senão nos termos deles e dentro do quadro de referências por eles imposto. Talvez o necessário aqui seja, em realidade, ser capaz de distinguir o que não pode ser silenciado pela perseguição hiper-moralista dos guerreiros da moral conservadora, e a continuação dos projetos inacabados de liberação negra, queer, trans, e feminista, para além do escopo totalitário.

Afinal de contas, o dilema distópico impulsionado pela intensa atividade dessas forças, pelo menos dentro do contexto brasileiro, foi antecipado até mesmo antes e por baixo da censura recente de obras de arte, exibições e seminários abertos ao público. Estava operante até mesmo antes e por baixo do que aconteceu com Judith Butler em São Paulo. Da perspectiva das pessoas as quais as expressões de gênero, desejo, sexualidade e corporalidade tem sido alvo dos códigos violentos da sociedade brasileira desde a sua formulação como democracia (e até mesmo antes e por baixo), os guerreiros distópicos dessa utopia militar sempre estiveram marchando. Nós — e aqui falo como uma bixa racializada não-binária nascida e criada no nordeste do Brasil durante o período pós-ditadura — vimos eles vindo. Ainda sim, ao invés de lutarmos sozinhas de nossas posições isoladas, escolhemos nos nutrir para não deixar que o crescimento deles nos parasse.

E nós precisamos continuar fazendo isso. Nós precisamos continuar imaginando. Precisamos continuar desbravando rotas de fuga no mapa sitiado da distopia brasileira; estudando como habitá-lo como encruzilhada e não como ponto de paragem — desviando, tumultuando, movimentando, como temos feito. Nós precisamos desarmar a guerra deles contra nossa imaginação radical para podermos sonhar com mundos que ainda não foram inventados, mesmo que toda semana os tornados reacionários do totalitarismo nos levem a defender coisas que nós já havíamos tomado por garantidas. Mesmo que eles nos forcem a defender o óbvio mil vezes, nós precisamos superar sua determinação, sonhando até mais além — acima, por trás, por dentro, contra e em volta do seu mundo de contenção. Nós precisamos incorporar, como intensidade e como matéria, o feitiço que nos permitirá falar em duas ou mais línguas ao mesmo tempo: uma que confronta a mordaça imposta pelos guerreiros da moral conservadora; e outra que nos leva para além do que eles haviam planejado para nós .

Não podemos deixar que eles nos parem agora.

(E não vamos!)

Este texto foi comissionado por e-flux conversations, e originalmente publicado em inglês no dia 18-12-2017. A tradução foi feita de forma independente e cedida pela autora ao blogue Monstruosas.

Prestação de contas: MoNSTRuoSaS: Tesões Apocalípticos nas Ruínas do Heterocapitalismo

Como ação política autônoma articulada em rede e com chamada de contribuição solidária, a 2ª edição do festival Monstruosas tinha como objetivo realizar o evento independente do valor final de arrecadação. Contudo a organização foi surpreendida com, além do apoio financeiro, o de serviços, possibilitando entre outras coisas, fornecer ajuda de custo para as atrações da programação e para equipe de produção. As contribuições e apoio foram dados em perspectiva ocultista, sem pretensão de contrapartida por meio de promoção ou propaganda por parte da equipe organizadora.

Portanto, nossos agradecimentos vão além dos valores e serviços aqui recebidos, mas principalmente por poder vivenciar, no percalço do colapso da civilização, a construção de ações autônomas que estimulam a solidariedade em congruência com uma economia da dádiva, presente nas culturas incivilizadas vítimas da colonização. Desta forma, o festival propõe uma alternativa material e concreta contra a assimilação queer e o pink money preservado a autonomia e a dissidência sexual enquanto política anticapitalista.

ENTRADA SAÍDA DETALHES
R$ 100,00 R$ 139,00 Transporte (ARTISTAS)
R$ 100,00 R$ 130,00 Transporte (ARTISTAS)
R$ 300,00 R$ 250,00 Camisetas
R$ 5,00 R$ 40,00 Papeis (CAPA ZINES)
R$ 50,00 R$ 20,00 Tintas (SERIGRAGIA)
R$ 100,00 R$ 50,00 Transporta público
R$ 40,00 R$ 70,00 Adesivos
R$ 15,00 R$ 100,00 Ajuda de custo OFICINA
R$ 240,00 R$ 100,00 Ajuda de custo OFICINA
R$ 20,00 R$ 100,00 Transporte artista
R$ 45,00 R$ 100,00 Transporte artista
R$ 700,00 R$ 50,00 Comida EQUIPE
R$ 20,00 R$ 45,00 Ajustes técnicos (INFRAESTRUTURA)
R$ 300,00 R$ 400,00 Cachê (ARTISTAS)
R$ 400,00 Ajuda de custo (EQUIPE)
R$ 41,00 Caixa Distro Dysca
R$ 2.035,00 R$ 2.035,00
ENTRADA R$ 2.035,00
CUSTOS R$ 1.194,00
CACHÊ ARTISTAS R$ 400,00
EQUIPE R$ 400,00
SALDO FINAL R$ 41,00

O saldo final de R$ 41,00 entrou para o caixa da Distro Dysca, plataforma de agitação política que distribuí nossas publicações, bem como a renda obtida por meio de contribuição espontânea dos zines, camisetas e adesivos resultando num valor de R$ 186,00.

 

Homens cisheterossexuais armas de destruição em massa, excluídas da MoNSTRuoSaS

A Monstruosas é uma iniciativa de combatividade, resistência, criação e agitação política em perspectiva antiheterossexista, anticissexista, anticolonial e interseccional, voltada para o encontro e fortalecimento das sexualidades e gêneros dissidentes.

A construção das masculinidades tóxicas e hegemônicas, perpassa, para nós, a virilidade, a falocracia, a intransigência e a insensibilidade. Isto precisa, além de ser questionado, hostilizado e confrontado, porque são nestes aspectos que se baseiam a deslegitimação dos comportamentos desviantes, das subjetividades, além das violências sexuais e de gênero que bichas, homens trans e não homens sofrem cotidianamente. Sendo assim, este evento é voltado para todes aqueles que não se sentem confortáveis com a imposição da masculinidade cisgênera e heterossexual (corpos víris, agressivos e não violáveis; penetradores universais e castrados de próstata), já que esta ocupa um local de proteção e privilégio exclusivo e supremacista. Ser hostil a homens cisheterossexuais, não significa deslegitimar as masculinidades trans e gay, pelo contrário, é entendê-las como um ponto de criticidade no que diz respeito a ser homem e como ameaça a soberania viril, representando o fracasso do controle biopolítico dos corpos.

Caso Dandara: homens cisheterossexuais espacancaram a travesti até a morte no Ceará

Entendendo que toda experiência é única e que os grupos identitários não são homogêneos, sabemos que ao hostilizar a presença de homens cisheteros estamos tornado o espaço convidativo para certos grupos ao passo que excluímos outros. Porém, nos afastamos da concepção de luta individualista e liberal, comum na militância e/ou ativismo LGBT, pensando a questão de gênero e as sexualidades para além da perspectiva de afirmação das identidades. Desta forma, um evento anticissexista voltado para sexualidades e gêneros dissidentes não é capaz e nem tem interesse em contemplar todas as vivências a partir somente da congruência sob os locais de fala, já que muitas vezes eles são conflitivos entre si. Assim, não temos outra escolha se não priorizar algumas experiências em detrimento de outras a partir de uma ética política anti-hegemônica.

As pessoas que protagonizam e colaboram com o evento incluí mulheres trans e cis, sapatões, bixas, homens cis não heteros, homens trans, não bináries e outras performances de gênero monstruosas, que consideram que seus comportamentos expressos de maneira mais livre e a exposição de seus corpos, seja no audiovisual ou nas performances, possam ser objetificados, heterossexalizados e violados, caso o evento torne-se permissivo com a presença de homens cisheteros. Isto é, enfatizamos a não pertinência de homens cis héteros em nosso evento mesmo acreditando nas falhas de ajustamentos e nas contradições entre nós dissidentes, uma vez que estas devem ser repensadas de forma a não ofuscar, nem confortar as categorias políticas privilegiadas ou ainda trazer imunidade aos corpos historicamente constituídos a partir da intolerância, rigidez e abusos.

Espaços livres de identidades hegemônicas não implica necessariamente em um espaço seguro para as construções desviantes, pois nenhuma identidade está completamente imune para violar corpos produzidos como outros, uma vez que as opressões se entrecruzam e que os conflitos estão presentes em qualquer agrupamento animal.

Como ação política antihumanista, este evento repudia o heterossexismo e seu cistema antropocêntrico, enquanto regime político e visa a emergência e a propagação de manifestações corporais em desacordo com a normalidade. Por isso, entendemos que homens gays e trans, mulheres e lésbicas que se apropriam da virilidade, do falocentrismo e da performatividade cisheterossexual correm o risco de assimilar comportamentos opressores e extremamente violentos às dissidências, mesmo sendo violentadas em suas expressões de gênero e sua vivência sexual. Consideramos tóxicas essas atitudes opressivas, ainda que vinda de grupos dissidentes, esses comportamentos também não são bem-vindos.

Nesta direção convidamos todas as dissidentes para uma movimentação política que utiliza a arte como ferramenta de contestação às culturas normativas de sexualidade, gênero e resistência, em perspectiva anarquista, abordando vozes periféricas às indústrias da arte e do audiovisual e reunindo produções independentes do Brasil e América Latina.

09 e 10 de Junho Dois Irmãos explode Recife de tesões apocalípticos

Com uma programação intensa durante os dias 09 e 10 junho, a segunda edição do festival MoNSTRuoSaS trás para o bairro de Dois Irmãos, em Recife, atrações de cunho contestatório e combativo, organizado inteiramente de forma colaborativa e autônoma em perspectiva anticolonial e antiespecista, criando e experimentando no cotidiano a desobediência às ideias normatizadoras do Mercado, do Estado e do Cristianismo.

Como agitação política sexodissidente, o evento é uma propagação das abordagens críticas a cerca das questões sexuais e de gênero sob as noções de protagonismo político, autonomia e ressignificação de estigmas enquanto metodologia de rejeição às opiniões heterocapitalistas. Distantes das premissas do individualismo identitário, da representatividade moderna e da assimilação liberal, nossa monstruosidade nomeia a norma, deslegitimando-a partir de nossos conhecimentos-bombas construídos nos lixos, no pecado, na bizarrice, na anormalidade, na violência, nas matas, na loucura e no medo. O encontro com a vida das monstras põe em cheque as ficções da humanidade heterocivilizada, que se assustam ao ver que seus pudores, controladores de comportamentos e mentes, são prazeres e liberdade pra seres distintos, eis o perigo das nossas existências.

Na sexta, 9 às 13h, o evento ocorre todo na Dhuzati. A Oficina Montaria Themônia Anticivilizatória com Sarita de Gzuis, marca o início do festival.  Baseada num conceito antiespecista de montaria, com recicle do lixo urbano e matéria orgânica coletada, a oficina visa a metamorfose do corpo humano incorporando nele galhos, folhas, cipós, chips, cobre, sementes, ferro, plástico, entre outros, inspiradas por culturas ancestrais.

As 17hrs tem início o Lançamento do Livro A Porca Punk – Ensaios de um feminismo lésbico, gordo, anticapitalista e antiespecista, com Missogina, escrito a partir da gordura, para politizar a ferida, visibilizar a cicatriz e narrar a dor transformando-a em prazer. E os Lançamentos dos Zines Como chupar um homem trans, Ódio aos Héteros, Feminismo de tomar armas, Por uma vida sem HIV, Ai Ferri Corti, Transfeminismo Insurrecional, Sapatoons, Masturbação Mental e Seis teses sobre ansiedade no capitalismo, além do projeto de “outra pornografia possível” para as ruas: Agitporn.

As 19hrs inicia a sessão Mostréias Monohistéricas trazendo os vídeos inéditos da MoNSTRA – Mostra Nordestina de Sexualidades e Travestigeneridades em Resistência no Audiovisual Articulada com o Pornífero Festival, a FILMARALHO e o Coletivo Coiote, em perspectiva anarquista, a mostra utiliza a arte como ferramenta de contestação às culturas hegemônicas de sexualidade, gênero, abordando vozes periféricas às indústrias da arte e do audiovisual e reunindo produções independentes do Brasil e América Latina.

Referência da Oficina Montaria Themonia Anticivilizatoria, crianças Surma do sul da Etiópia, realizam incríveis pinturas em seus corpos com pigmentos naturais extraídos de minerais e vegetais.
Conjuro Sapatânico, estreia na sessão monstréias monohistéricas da MoNSTRA
Para Valeria Flores, ativista lésbica chilena, A Porca Punk é um brilho insubmisso que irradia a gordura de uma proletária da beleza e saúde para reinventar o pensamento normativo.

No sábado, 10 as atividades iniciam as 14h na Dhuzati, com o eXXXcitades, que trás a proposta de refletir as nossas práticas sexuais numa perspectiva dissidente e antiheterossexista, a abertura fica por conta de Amanda Palha e Leonardo Tenório compartilhando experiências de trabalho sexual na roda de diálogos Sexo, Prostituição e Exotização dos corpos trans,  logo após, apresentação de La Makina X Xperimentus Stérikus de Menstruosidads Transviadas de Wyrá Potyra, encerrando com a esperada Oficina de Shibari e Bondage facilitada por Missogina, compartilhando aspectos teóricos e práticos sobre as técnicas de amarração, imobilização e bondage. Durante todo o dia Aline Veloso estará aplicando piercings além de sessões de tatuagem com Porca Flor e Ziza Tatu.

Leonardo Tenório, Wyrá Potyra e Amanda Palha, no eXXXcitades
Shibari com Missogina

As 21:30h a pista de dança do Espaço OVNI vira barricada pornoterrorista contra o heterocapitalismo. A Danzando en Revolta, apresenta corpos como arma bélica e a música como ruído da queda da civilização, para que nossas existências possam dançar em revolta. Com apresentação pirata e clandestina de Anarkofunk e lineup de Hectamonstra (vinhetas anticivilizatórias), Paulet Lunatica Lindacelva (discohouse, afrohouse, nudisco), Sarita de Gzuis (tecnobrega, bregapop, cumbia e tupinikuirzices), Rastafraude (afrobeat, trap music e kuduro), além das video projeções dançantes e tecnorgásticas de Kimberly Lindacelva

Como grandes atrações desta catalisação de encontros, a noite ainda conta com a apresentação das performances A Punição dos Anjos de Edilson Militão, Pornobalismo de Juma Marruá e Modos de Fazer Sabão de Kalor Pacheco

Edilson Militão em Tanatopraxia
Kalor Pacheco em Tecnologia a serviço da orgia

Durante todo o evento bancas de comida, bebidas, cerveja sem milho transgênico e cachacinhas artesanais, além das bancas com material gráfico da Distro Dysca, kumbayá, brechó, cadernos artesanais e materiais das Bixas Arteiras. Tudo absolutamente vegano, sem cadáver e sem estupro.

Com foco nos tesões apocalípticos que gozam nas ruínas da heterossexualidade compulsória e da família nuclear androcentrada o festival Monstruosas é inteiramente voltado para o encontro e fortalecimento das sexualidades e gêneros dissidentes. Estamos em guerra. Evocar os santos, as armas, a mídia e as instituições do inimigo só irá criar novas margens e estimular a disputa entre nós mesmas por um reconhecimento heterocapitalista e civilizado. Nossa liberdade sexual e de gênero, pede criação de contra-prazeres e contra-sexualidades que fisurem micropoliticamente a ordem das identidades que a heterossexualidade enquanto regime criou biopoliticamente.

EVENTO NÃO ABERTO PARA HOMENS CIS HETEROSSEXUAIS: As pessoas que protagonizam e colaboram com o evento incluí mulheres trans e cis, sapatões, bixas, homens cis não heteros, homens trans, não bináries e outras performances de gênero monstruosas, que consideram que seus comportamentos expressos de maneira mais livre e a exposição de seus corpos, seja no audiovisual ou nas performances, possam ser objetificados e violados pelas maculinidades tóxicas

MoNSTRuoSaS
Tesões Apocalípticos nas Ruínas do Heterocapitalismo

09 e 10 de Junho
Dhuzati Coletiva Antiespecista Artesanal
Espaço Ovni
Dois Irmãos, Recife – PE

[CHAMADA DE COLABRAÇÃO SOLIDÁRIA] Vem aí, MONSTRUOSAS: Tesões apokalíptikos nas ruínas do heterocapitalismo

Em junho de 2017 a Distro Dysca, realiza a 2ª edição da Monstruosas, desta vez focando nos tesões apocalípticos que se fortalecem desprezando a falocracia da masculinidade tóxica e civilizada. Gozar em cima das ruínas da heterossexualidade e da família nuclear androcentrada é um ato que transforma os esforços para demolição do heterocapitalismo em um orgasmo lascivo, sendo as vivências e as práticas dissidentes um vírus que se propaga contaminando os corpos com a descolonização dos desejos e afetos. Nossos prazeres e a forma como se alcança-os também são políticos e fazem parte de uma subversão estrutural a cerca do controle biopolítico dos corpos.

O evento está sendo todo organizando sob protagonismo dissidente em perspectiva colaborativa, horizontal, autônoma e solidária. Serão dois dias de intensas atividades com oficinas, rodas de diálogos, sessões de tatoo e piercing, lançamento do livro A Porca Punk, lançamento de zines, mostra de vídeos e performances, além de uma festa de confraternização que catalisará as pulsões emergidas neste grande encontro. Com a participação de ativistas, artistas, performers e pornoterroristas, os trabalhos e debates selecionados para compor a programação, são realizados por companheires do Brasil, México, Argentina, Chile e Peru, retratando uma disparidade estética e propositiva que tem na visibilidade das sexualidades e gêneros dissidentes uma arma humanicída que infecta os corpos heteronormativos autocompreendidos como poderosos, verdadeiros, definitivos e hegemônicos.

Nossos custos de produção envolvem:

  • O transporte das facilitadoras e performers que se encontram em regiões diferentes do Brasil, bem como transporte urbano para circulação e compra de materiais para as oficinas.
  • A tradução de textos, diagramação e tiragem dos zines que serão lançados pelas monstruosas como Agitporn, Localização Política da AIDS, Contra o Quebranto Sobre o Corpo Monstruoso, Gordas e Anti Especismo e Mastrubação Mental;
  • O aluguel de material para exibição de vídeo como projetor e telão
  • Impressão de folders e cartazes de divulgação que serão espalhados em regiões periféricas da cidade.
  • Ajuda de custo para alimentação e hospedagem das companheires de forma que não sobrecarregue o orçamento e a organização cotidiana das amigas que forneceram suas casas, na periferia de Recife, para hospedagem e troca de vivências.

A 1ª Monstruosas, contou com doações colaborativas e um almoço solidário realizado pela Dhuzati Coletiva Antiespecista Artesanal. Devido à experiência exitosa estamos convidamos amigues e demais apoiadorxs da rede sexodissidente e anticapitalista para contribuir financeiramente com este projeto, objetivando o acesso gratuito à todas nossas atividades.

O festival será condensado na seguinte programação: MoNSTRaMostra Nordestina de Sexualidades e Travestigeneridades em Resistência no Audiovisual; Danzando en Revolta; eXXXcitadesoficinas de shibari, debates transsexuais, tatoos e piercing; Montaria TheMônia Anticivilizatória e Lançamento do livro A Porca Punk + lançamento de zines. As doações podem ser feitas através de depósito no Banco do Brasil na seguinte conta:

A. Buarque de Souza
CPF: 048.656.864-44
AG. 1245-9
CC 45990-9

Por ser um projeto autônomo, nossa contrapartida para esta chamada se dá pela própria realização do evento que ocorrerá na periferia de uma grande cidade do nordeste brasileiro, como estratégia de sair de um centro tomado pela gentrificação, priorizando o recorte de classe nas perspectivas críticas a cerca dos comportamentos sexuais e de gênero. Nosso foco é o fortalecimento dos corpos monstruosos e racializados que se encontram fora das grandes instituições de produção instrumental de conhecimento, reconhecendo as inspiradoras experiências de resistência, criação e pirataria construídas desde as situações de exclusão familiar, trajetórias na prostituição, até o enfrentamento contra às violências resultantes da expansão cristã neopentecostal nas periferias e da supremacia machulenta.

SELEÇÃO DE FILMES: MoNSTRA Intinerante POA

A MONSTRAMostra Nordestina de Sexualidades, Travestilidades e Resistência no Audiovisual – chega em Porto Alegre trazendo um pouco de cultura de resistência sexo dissidente para propor além de outro mundo, outros desejos possíveis.

A Uma movimentação política que utiliza a arte como ferramenta de contestação às culturas hegemônicas de sexualidade, gênero e resistência. Em perspectiva anarquista, aborda vozes periféricas às indústrias da arte e do audiovisual, reunindo produções independentes do Brasil e América Latina.

Articuladas com o Pornífero Festival que acontece desde 2014 na cidade de Lima, no Peru; com a FILMARALHO produtora audiovisual independente radicada na Cidade do México; com o Coletivo Coiote de ação-direta pornoterrorista anti-arte; e com a Distro Dysca produtora independente de movimentações político-culturais combativas, buscamos reunir materiais artísticos que questionem a binarismo de gênero e seus esteriótipos, a heterossexualidade compulsória enquanto regime político, além do machismo e o sexismo enquanto culturas opressoras intrínsecas em nossos corpos. Tais materiais trazem questionamentos, propostas e possibilidades de descolonização e emancipação através de experimentações registradas e ações que combatem essas opressões.

Curtas, médias e longas-metragens, videoperformances, video-arte, registros e demais manifestações audiovisuais além de performances e debates constroem uma programação que põe o corpo no centro da mandala dos desejos.

SELEÇÃO DISTRO DYSCA:
Seleção de filmes enviados à convocatória da Distro Dysca, plataforma de agitação cultural crítica em perspectiva anticolonial, anticapitalista e antisexista

SELEÇÃO FILMARALHO
Produtora audiovisual independente radicada na Cidade do México, que visa a fomentação, circulação e discussão de filmes cuja temática tangencia a problematização de diferentes questões estéticas, sexuais e políticas.

SELEÇÃO PORNÍFERO:
O Pornífero Festival acontece desde 2014 na cidade de Lima no Peru com objetivo de apresentar liberdades visuais derivadas de práticas radicais em um contexto ibero-americano, que tem mudado através de uma lógica histórica repleta de regimes políticos assassinos e ditatoriais, instalado comodamente em um sistema pro capitalista neocolonial cuja característica principal é a tecnologia.

SELEÇÃO COIOTE:
As performances do Coletivo Coiote abrangem temas como violência de gênero e colonização do corpo expressos de forma a acionar sensações bastante fortes quando levadas às manifestações.

SERVIÇO:
MoNSTRA – Mostra Nordestina de Sexualidades e Travestilidades em Resistência no Audiovisual | Itinerância em POA
1º de Abril às 18h
Casa Frasca – Av. Independência, 406, Porto Alegre, RS

Feminismo liberal e Esquerda Assimilada descredibilizam denúncia e protege agressores de pessoas trans

Com maestria foi anunciado o som da Orquestra Popular Burguesa pelo Direito de todxs à Cidade Classe Média. Primeiramente a Moderação do Grupo Direitos Urbanos, remove postagem de denúncia de agressão cometida por Ítalo Bazon e apoiada por Roger de Renor. Depois posts de Carlota Pereira e Liana Cirne concluem a apresentação dando o toque clichê de naturalização da violência sexista. Tudo ao vivo direto do Teatro Santo Mark Zuckerberg.

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“Minha frustração, chateação ou inquietude, como queira chamar, surge quando me deparo com várias situações ao meu redor em que se supõe que, segundo o discurso, deveríamos já ter superado ou no mínimo trabalhado sobre elas e que, muitas vezes, reproduzimos os comportamentos mais ordinários do oportunismo clássico.

Vejo que colegas (gurias) são agredidas por seus companheiros, física e psicologicamente, vejo que colegas (principalmente caras) escondem sua homossexualidade, vejo que quando acontece algum debate sobre sexismo ou patriarcado é sempre uma iniciativa das gurias e as posturas dos caras são bastante patéticas, vejo milhares de dinâmicas que reproduzem as desigualdades entre caras e gurias, homos e héteros (cantadas, papeis em reuniões,restrição à escrita…), vejo hierarquias informais que fazem com que tenhamos uma dupla moral frente a diversas situações (credibilidade de acordo com a pessoa, cantadas, abuso, agressões…), vejo que não temos mecanismos para afrontar tudo isso, e que nem sequer temos um espaço, ou interesse para criá-lo, onde possamos falar sobre e procurar saídas…”

“Sobre gênero e caras “do rolê” (ou de como estamos com a merda até o pescoço).” Texto difundido em 2004 no Indymedia e no fanzine espanhol “Bailamos?”. Versão em português publicada no livro Tesoura Para Todas: Violência Machista nos Movimentos Sociais, 2013. Ed. Deriva

A denúncia de agressão e cumplicidade machista compartilhada na ARCA ocorrida na última edição do Som na Rural, revela com detalhes, o nível em que a discussão sobre violência sexista encontra-se no cenário político de Recife. Usos de fala e compartilhamentos oportunistas, além de comentários que classificam a denúncia como farsa, embasados nas relações pessoais com celebridades e outros tantos clichês machistas, evidenciados por apenas um motivo: a denúncia compromete diretamente o fazer político de quem faz arte urbana e se apropria dos discursos de direito à cidade. Apesar da agressão não ser formalmente negada pelos denunciados, muita gente concluiu que a publicação não contém provas e que as informações eram imprecisas e truncadas.

Acreditamos que o texto localiza muitíssimo bem a violência ocorrida e a cumplicidade do produtor cultural com o agressor, além das informações descritas contarem com uma quantidade significativa de testemunhas, entre elas a ex-cunhada do agressor que também profere uma nota publicada no blog da ARCA. O texto também denuncia a cumplicidade do Som na Rural com incitadores de estupro e também relata a contínua perseguição de Ítalo às pessoas trans, expulsando-as do local. Mas ainda assim a muita gente ainda crê que estas informações são insignificantes para a denuncia publicada.

450xNTais justificativas apenas atestam que o combate ao machismo visto nas pessoas que compõe o nicho mercadológico da esquerda assimilada e colaboracionista é seletivo e midiático, não admitindo questionamentos incisivos com as pessoas na qual há interesse de articulação ou de visibilidade. A moderação do Grupo Direitos Urbanos, Liana Cirne, Carlota Pereira, Edilson Silva e várias outras pessoas ligadas ao PSOL agem descredibilizando a denúncia e colocando os apontados em locais de conforto, como faz toda a estrutura da supremacia machista tão enraizada no Estado Democrático de Direito, estrutura que todas as citadas parecem reivindicar não reconhecendo que a lógica de Estado e Elite Soberana é uma das mais sofisticadas e perigosas tecnologias de dominação patriarcal.

Tal posição atesta o completo desconhecimento a cerca de toda uma epistemologia, cuidado e prática feminista, transfeminista e sexodissidente sobre situações de agressão, assédios e abusos por parte de pessoas com amplo status social. Assim, empenham-se em reproduzir a norma opressora clichê de desacreditar nas vítimas e ao mesmo tempo não leva como prioridade que os denunciados não sejam acobertados ou confortavelmente inocentados, pelo contrário, expõe a falta de interesse e a incapacidade de questionar criticamente as pessoas que circulam em volta da sua redoma e fornecem vantagens para um fazer político realizado nos moldes de espetáculo. É sabido que esta postura pouco tem a ver sobre provas e informações precisas, tem a ver com o peso político que a nota implica e traz no apontamento de suas localizações. A maneira como foi lidado este caso escancara a pífia inserção nos debates sobre opressões sexuais e de gênero em perspectiva emancipatória e não assimilacionista de grupes e individues esquerdistas em Recife.

A invisibilidade, descredibilidade e rechaço de pessoas trans; proteção, camaradagem e solidariedade aos agressores, bem como a apatia, inércia e desprezo sobre uma grave situação de agressão contra pessoas trans por pessoas que estudam violência doméstica, por um feminismo elitizado e por esquerda demagógica e hipócrita também implica em racismo quando as que desvalorizam, negam e desmerecem a denúncia ocupam profissões de prestígio e privilegiadas na estrutura capitalista, são, não por acaso, pessoas brancas e/ou colaboradoras de valores brancos. Infelizmente o discurso de trabalhadoras ambulantes transgêneras e negras, sem prestígio social e sem colaborações sistemáticas com os privilégios hegemônicos, por mais rebuscado que se apresente, nunca foi colocado como algo credível e possível de verdade. No Estado Democrático de Direito é o discurso do colonizador vestido pela etiqueta civilizada que é aceito e na sua maioria das vezes incontestável e é esta perversa estrutura e lógica de relação de poder que se reproduz nas mais diversas e pequenas situações submetidas por esta macropolítica.

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O que vem acontecendo é exatamente o que o sistema machista faz com as mulheres todos os dias, só que com o agravante de partir de pessoas que tem uma militância expressiva na cidade, poder de convencimento e alto alcance de suas ideias. O poder político destas pessoas se dá apenas por serem sujeites que possuem poder e privilégios na atual estrutura de dominação e claro, colaboram com a exploração capitalista. O uso covarde do estereótipo de loucas, mentirosas, violentas, agressivas, barraqueiras estimulando a descredibilidade e estigmatização das vítimas, também implica em misoginia por se valer de estereótipos criados pela lógica machista para deslegitimar, tão comumente, pessoas ligadas a ideia de feminino. Ainda foi relatado falaciosamente, na tentativa de deslegitimar as denunciantes, que algumas companheiras estão se afastando do feminismo e que muitas entraram em depressão, por conta das denunciantes. As mesmas esclarecem que não compartilham, nem ao menos compõe espaços feministas institucionais, estudantis ou mesmo tradicionais na cidade, sendo a denúncia da advogada uma calúnia abominável usada apenas para estigmatizar pessoas trans, o que acarreta transfobia explicita, covarde e maquiavélica. Os espaços de luta antisexista que as denunciantes tentam se aproximar são aqueles com explicitas intenções e posicionamentos anticapitalistas, que certamente não são os mesmos que circulam a difamadora.

Consideramos que os desdobramentos da denúncia, a exclusão da nota da página do DU, os posts de Liana Cirne, a nota de Carlota e mais uma centena de compartilhamentos e comentários que deslegitimaram, escracharam e silenciaram as denúncias, estão completamente em desacordo com uma lógica e prática feminista para lidar com denúncia de agressões e casos que envolvem violência com pessoas de status. Como é que duas denúncias são feitas e as pessoas simplesmente não as problematizaram e focaram, estritamente, em uma defesa visceral de Roger e do Som da Rural? O que importa é a imagem da rural não ser transfóbica em detrimento da segurança e bem estar de todas as denunciantes?

Casos como este faz nos lembrar-nos de Idelber Avelar e Carlos Latuff e sobre como ter poder político pode inocentar ou relevar qualquer atitude politicamente controversa, também nós é salutar a lição e uma leitura crua sobre o ativismo em Recife: Empoderamento como status individualista, solidariedade branca e sustentada por profissões de prestígio, enquanto pessoas trans negras são agredidas a custas da invisibilidade, apatia e desprezo das que agregam valor político apropriando-se de discursos emancipadores com objetivo de acumular status.

Segue abaixo a mensagem da moderação do grupo Direitos Urbanos, justificando a exclusão do post:

“A moderação se reuniu para decidir sobre este post e chegamos à conclusão que ele parte de uma denúncia sem fundamento de provas. Mais: acusa Roger de violência quando não parece haver nenhum prova clara que isso aconteceu. Acredito que a própria semântica da denúncia carece também de clareza e discernimento, aumentando o clima de de incerteza quanto aos fatos. Desta forma, a moderação vai retirar o post e espera que a autora reformule de forma precisa e com provas substanciais a acusação. Caso contrário, seremos obrigados a retirar o post novamente. No mais, o a moderação do DU esclarece que este não é o primeiro e provavelmente não será o último post a ser retirado quando se trata de denúncia pouco esclarecedora. É preciso haver responsabilidade e provas para fazer este tipo de denúncia e o texto postado não parece ter seguido esta linha”.

Comentários em apoio as vítimas:

transito“Eu até entendia mais quando vocês não queriam romper com a brodagem, mas agora que muitos já romperam me pergunto por que fizeram isso seletivamente. (…) Eu preciso dizer que isso é transfobia. Vocês já se posicionaram contra o machismo e a favor da representatividade a partir de diversos episódios este ano e, em outra proporção, em anos anteriores, e aqui incluo o caso onde um grande amigo de Roger, Ortinho, fez apologia ao estupro. Por que o silêncio aparece sempre localizado quando as vítimas não são cis? Enfim, o silêncio nunca protegeu ninguém. Apelo para que leiam, compartilhem e falem sobre esse caso.”

“Os mesmos elogios que vc faz a roger eu faço às 2 amigas agredidas, numa militância que tem mt mais minha admiração e que, por nunca ter acontecido de forma exibicionista, fica num lugar desprotegido em relação a Roger, como se vê no post do DU. penso, ainda, que se começamos a desconfiar das vozes das vítimas, estamos concordando com os discursos que colocam estas pessoas – frequentemente mulheres – como histéricas. falar das relações que Roger   tem com pessoas não dissidentes é tokenizar a situação. é dizer que ele não reproduz sistemas de opressão pq até tem amiges oprimides. pois, a título de exemplo, digo que chamar Ortinho para cantar no Estelita depois dele fazer apologia ao estupro é ser conivente com as palavras de Ortinho. pra citar apenas uma situação. sinto que as discussões sobre machismo no recife estão ganhando um ar de “estão indo longe demais, problematizando demais, expondo demais” porque mais uma vez continuam individualizando essas manifestações opressoras, que nem sempre são tão escancaradas, mas são sempre sistemáticas.”

“Se tem uma coisa que marcou o afastamento entre o Movimento Ocupe Estelita e o grupo Direitos Urbanos, ao meu ver, foi a prática centralizadora e a pouca preocupação no empoderamento coletivo de muitos dos membros do DU para com as pessoas interessadas em compartilhar esse debate. não é a toa que uma série de vezes, em tópicos do grupo, as conversas continuem centradas nos poucos membros da moderação ou que se estabeleça frequentemente uma postura hierárquica de espaço de consulta.
Hoje as mesmas pessoas, no curso de comentários sobre a nota que acusa o Som na Rural de conivência com transfobia, impediram o texto pelo uso de uma série de termos essenciais para se analisar o que ocorreu e impedir a prática de gaslighting com as vítimas. me surpreende que, quando elas estão construindo algo coletivamente não se interessem em empoderar todos dos conceitos que usam frequentemente, e quando se trata de um movimento que pode deixar seus privilégios desmantelados como o transfeminista frente ao cisativismo, não só houve falta de esforço em compreender o que foi dito – o que se caracteriza como falta de empatia – mas se usou também de um discurso que está sempre nas bocas de quem reproduz a opressão machista: histérica, confusa, mentirosa.”

Links úteis:

10 reflexões para denunciados de abusos e agressão machista
Tesoura para todas: Textos sobre violência machista nos movimentos sociais
Cenas ativistas não são espaços seguros para mulheres
Transfobia é a epidemia que os movimentos sociais devem combater
Mulher, a esquerda não liga para você!

Kurso Kuir com Jota Mombaça em Recife gratuito e não recomendado para homens cis heterossexuais

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KURSO KUIR – PERSPECTIVAS MESTIÇAS

A ideia é deslocar o sentido da apropriação “queer” no contexto latino a partir do contágio com as produções de uma rede de artistas-ativistas-articuladorxs que, desde as posições críticas de sujeitxs transbordermestizxs, pirateiam esse referencial, pervertendo seu sentido político associado à colonialidade. Kuir é uma inflexão fonética desse termo que nos foi informado pela produção euroestadunidense; e implica considerar, além das questões ligadas à dissidência sexual e de gênero, o problema da colonialidade em suas intersecções geopolíticas e de raça, classe, espécie. Textos-bomba, videos pornodissidentes, performances e outras produções estéticas monstruosas a partir de nossas próprias experiências periféricas, mestiças, generodesobedientes, anticoloniais e sexualmente transmissíveis.

Quanto a inscrição: não vai precisar enviar e-mail, basta chegar no dia com um pouquinho de antecedência e, enquanto houver espaço, todes serão acolhides. Quer dizer, todes exceto homens cisgêneros heterossexuais, os quais não encorajamos a participar (simplesmente porque esta atividade não é sobre vocês). As demais pessoas (que não se encaixem nessa categoria), sim, serão bem vindas.

Atitudes de cunho heterossexista, misógino, transfóbico, racista, lesbofóbico, gordofóbico, capacitista, homofóbico, patriarcal, xenofóbico e classista serão resistidas e rechaçadas, independente de quem as acione. A ideia é criarmos um espaço interseccional bacana onde todes possamos nos expressar a respeito de nossas questões sem que, para isso, violentemos outras corpas minoritárias.

Jota Mombaça pode ser chamadx Monstrx, K-trina e Erratik. É umx one hit artist pop guerrilheirx, bruxx políticx, performer e pesquisadorx del kuir em contextos sudakas, terceiro-mundistas, transfronteiriços e de mestiçagem estética, ética, visual, linguística, política, étnica, sexual e epistêmica.